Meus Contos

Até Breve

Eu não lembrava da casa ser tão pequena, quase não posso respirar aqui dentro. Não lembro daquela sala ser tão gelada. Se eu parar agora mesmo e forçar a memória posso lembrar de dias quentes e felizes que passamos aqui dentro. Eu, meu marido e os meninos. Tenho certeza que naquela época não tinha esse ar gelado pelos corredores que invadem meu coração.

Me chamam do quarto, um chamado doloroso e urgente, e sinto que o sofá me afunda em suas almofadas. Em outras épocas quando meu filho chamava daquela forma eu iria correndo, mas será que a casa ficou maior nesse mesmo instante em que tento chegar até ele? Cada passo que dou parece que tem cola no piso de madeira.

Enquanto caminho lentamente para o quarto, tentando adiar ao máximo aquele momento, contemplo as fotos penduradas no corredor. Ainda lembro daquele dia no parque quando levamos nossos filhos pequenos para brincar de bola. Alfredo era todo sorriso enquanto ensinava Leandro e Carlos a chutar a bola um para o outro. Agora são eles que ensinam os filhos como um dia seu pai fez.

Em uma outra foto quase não me reconheço. Agora tão marcada pelo passar dos anos fica quase difícil de acreditar como estava bonita em nosso casamento. Fixo meu olhar em seu olhar, ali pelo retrato que eternizou aquele momento. O chão parece escorregadio aos meus pés, porque quase não consigo manter o equilíbrio.

Passo pelo banheiro fugindo do meu olhar no espelho. Meus olhos com certeza estarão inchados, quantas noites e dias não passei em claro depois daquela terrível noticia. Mais uma vez minha mente me leva para o passado. Quantas noites passamos conversando sobre a vida e quantos dias não passei sonhando acordada em viver uma vida toda ao seu lado. Bom, pelo menos eu pude viver meu sonho.

Meus passos se tornam mais lentos e as paredes parecem se fechar ao meu redor. O corredor parece escuro apesar de suas paredes brancas e janelas abertas. Não quero continuar andando, mas sei que preciso. Lá dentro daquele quarto que um dia guardou nossos segredos está meu maior pesadelo. Mas sei que preciso entrar, meu filho me espera ao lado de seu pai e não posso deixa-lo passar por isso sozinho.

Ao chegar na porta entreaberta paro para tomar fôlego para o que irei ver. Já o vi é claro em várias situações ao longo da vida, mas esperava nunca ter que passar por esse dia. Brincávamos na cama, após deitarmos abraçados, quem iria primeiro. No fundo sempre quis que fossemos juntos, para assim não existir aquele sentimento de vazio que me dominava.

Abro a porta devagar, ela parece pesar uma tonelada em minhas mãos. Olho primeiro para o teto porque tenho a sensação de que ele vai me esmagar, tão forte é o aperto que tenho em meu coração. Depois para o chão, agora a sensação é de que estou entrando em um buraco escuro e frio.

Movo meus olhos para o armário marrom que montamos juntos, para a cômoda com flores de mentira que um dia ele me deu, para qualquer lugar que não seja o centro do quarto. Não há mais pressa, agora que cheguei ao quarto tudo o que quero é voltar no tempo.

Lá dentro, naquela cama que agora parece grande demais está o amor da minha vida. Até breve meu amor, eu não demorarei.

 

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Priscilla O'nil
Apaixonada por livros desde pequena venho compartilhar com vocês um pouco desse mundo da leitura

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