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Meus Contos

Deixe a luz acesa

Minhas lembranças ainda estão meio nubladas, por isso desculpa se eu parecer confusa em meu relato. Mas onde estão meu modos, não é assim que se começa uma história. Meu nome é Laura, minha idade é 28 anos e eu vou te contar sobre o dia em que tudo mudou. Mas estou me apressando de novo, afinal eu ainda não sabia disso.

Minha história começa numa segunda feira de manhã, o dia mais preguiçoso da semana para a maioria das pessoas. Para mim, que era enfermeira em um hospital, era só mais um dia normal. Já não via mais diferença entre dias da semana, finais de semana e feriados. A vida apenas passava por mim.

Acordei como todos os dias as oito da manhã, essa em especial acordei em meio ao barulho de chuva batendo em minha janela. Por algum motivo a chuva sempre me deixou nostálgica. Ainda deitada em minha cama lembrei de quando era criança e acampava com meus pais. A chuva batia em gotas fortes sobre a tenda da barraca, apesar do barulho forte lá dentro eu me sentia segura.

Um arranhado e choro baixo na porta me acordou do meu devaneio. Levantei e abri a porta, como um furacão Toby entrou abanando seu rabo e seu longo corpo junto. Apertei seu focinho entre minhas mão sentindo suas lambidas desajeitadas em meu rosto. Era o bom dia mais sincero que poderia receber.

Tomei um café enquanto via as notícias na televisão. Tanta tragédia, corrupção e roubos. Desliguei a televisão um tanto irritada. Normalmente eu assistia sem esboçar sentimentos, ainda sonolenta. Mas nesse dia eu estava inquieta por dentro, ver notícias ruins pioravam a ansiedade que crescia dentro de mim.

Toby latiu para mim, como se a minha agitação de alguma forma tivesse passado para ele. Sentei no chão ao seu lado e o peguei no colo. Na janela a minha frente a chuva ainda caia forte. Diferente das minhas lembranças de infância, nesse dia senti medo. Como se a chuva pudesse me fazer mal. Que besteira, pensei em seguida, é só água. Acho que posso até ter dito isso em voz alta.

Me arrumei sem pressa, como quem não quer que aquela atividade acabe. Não percebi isso na hora, talvez nem tenha sido exatamente assim. Mas quando penso naquele dia é assim que lembro. Como se o mundo estivesse em câmera lenta, apesar do furacão que se passava dentro de mim.

Respirei fundo e me sacudi antes de sair de casa, numa tentativa frustrada de me livrar daquela sensação de inquietação. Tinha um dia cheio pela frente e me sentir mal tornaria tudo pior. Deve ser essa chuva forte, pensei, os trovões deixam tudo mais ameaçador. Não se tem um filme de terror sem eles e olha que em minha juventude assisti a vários deles.

No carro coloquei uma musica agitada para tocar e cantar junto. Se você não consegue parar com a inquietação então junte-se a ela e faça uma festa. O caminho para o hospital estava com poucos carros aquela hora da manhã e eu dirigia devagar por causa da cortina de água em minha frente.

É aqui que tudo fica nublado.

Tenho flashes. Um de estar cantando, outro de uma escuridão e vem então um barulho de sirene. Lembro de vozes agitadas, mas não lembro de suas palavras. Lembro de uma dor forte e então o nada.

Acordei na escuridão. Um vazio sem fim. Imaginei que esse seria meu inferno, um infinito de nada e eu no meio. Eu não tinha corpo, apenas um sensação de ser. Mesmo sem voz eu tentei gritar, mesmo sem olhos eu tentei chorar. Mas ali no escuro, ninguém me respondeu.

Sinto que passei anos e anos assim, mergulhada nesse oceano negro. Até que um dia um fio de luz apareceu e trouxe com ele uma voz. A voz me dava bom dia. Tentei com todas as minhas forças, porém não conseguia responder de volta. Fiquei cansada e mergulhei mais fundo.

Meu período mais feliz foi quando comecei a ter flashes de minha vida. Passava por mim como um filme. De quando eu era pequena e ia correndo para os braços da minha avó. Tudo fica escuro novamente e então o filme adianta e eu estou andando de bicicleta com meu pai correndo atrás de mim. Mais um pouco e estou dando meu primeiro beijo. Minha formatura. Minha primeira vez morando sozinha.

Pensei em quão errado estava aquilo. O filme da sua vida passa antes da sua morte e não depois. Mas as memórias eram melhor do que o silêncio então aceitei com gratidão aquelas migalhas de vida.

Mas estão cada vez mais fios entravam em minha escuridão. Apesar de ainda não ter corpo comecei a sentir partes de um. Uma mão sendo apertada. Um pé mudando de posição. Tudo aquilo me deixava exausta, era demais para minha mente. Então eu procurava a escuridão novamente.

Um dia me questionei se poderia abrir os olhos, então eu os abri. Uma explosão de cores me atravessou. Demorou mais alguns dias, muitos deles na verdade, para eu conseguir entender o que estava vendo. A morte, pensei comigo, é bem parecida com a vida.

A primeira vez que vi minha mãe eu chorei. Achei tão injusto ela ter morrido também. Foi preciso de mais outros vários dias para eu entender que não estávamos mortas. Minha mente mergulhava na escuridão de tempos em tempos ainda. Mas eu ficava cada vez por mais tempo na luz.

Essa é a história de como a minha vida mudou. De como achei na escuridão sem fim motivos para sempre procurar a luz. Ainda me pergunto se é por isso que meus pais sempre deixam uma luz acesa.

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Priscilla O'nil
Apaixonada por livros desde pequena venho compartilhar com vocês um pouco desse mundo da leitura

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